Resistência à Insulina: o
que acontece no organismo e porque é tão importante preveni-la?
A Diabetes Mellitus tipo 2
(DM2), descontrolo da glicemia (açúcar no sangue), é a forma mais frequente de
diabetes e resulta, na maioria dos casos, de um processo gradual de resistência
à insulina associado à incapacidade progressiva do pâncreas em compensar essa
resistência. Embora esteja muito ligada ao excesso de peso, ela não é igual para
todos. Já foram descobertos, vários perfis diferentes de resistência à insulina
o que explica por que razão cada pessoa reage de forma única à doença,
exercício e alimentação.
Sabia que?
A resistência à insulina pode estar presente durante 10 a
20 anos antes do diagnóstico de diabetes tipo 2. Durante esse período, os
níveis de açúcar no sangue podem ser aparentemente normais, enquanto o
organismo produz quantidades cada vez maiores de insulina para compensar.
1. O que acontece no metabolismo?
Existem vários mecanismos
conhecidos principais que podem ocorrer no nosso metabolismo:
- Nos músculos: os músculos perdem a sensibilidade à
insulina e deixam de conseguir guardar o açúcar para usar como energia;
- No pâncreas: as células que fabricam a insulina
começam a falhar ou a produzir em excesso para compensar a resistência
criando um ciclo vicioso;
- No intestino: as hormonas do intestino
(incretinas) deixam de trabalhar em equipa com a insulina;
- No fígado: este continua a produzir açúcar, mesmo
quando o corpo já tem açúcar a mais no sangue;
- Nas células de gordura - as células de gordura
tornam-se resistentes à insulina para se protegerem de crescer demasiado e
romper.
Curiosidade: através
destes diferentes mecanismos, as pessoas reagem de forma diferente aos
alimentos. Ou seja, algumas pessoas têm um pico de açúcar quando comem massa,
enquanto outros reagem à batata. No entanto, o arroz branco tende a provocar
aumentos significativos da glicemia na maioria das pessoas.
2. O papel da Insulina
O papel primário da insulina
é gerir a energia do corpo, ordenando às células para capturarem açúcar e assim
controlar os níveis deste no sangue. O corpo usa o açúcar como fonte principal
de energia, logo este não pode descer demasiado, mas em excesso causa danos.
Por norma quando comemos
uma refeição, o açúcar no sangue sobe. Das características desta subida, se é lenta
ou rápida, vai depender a resposta do pâncreas e a quantidade de insulina
libertada. O organismo utiliza primeiro este açúcar como fonte de energia
imediata. O excesso é armazenado sob a forma de glicogénio nos músculos e no
fígado e, quando estas reservas estão preenchidas, pode ser convertido em
gordura.
Quando em jejum a insulina
no sangue baixa indicando às células que deverão
libertar açúcar para o sangue se o tiverem em excesso, utilizar o que tem de
forma mais eficaz e/ou encontrar outras fontes de energia.
3. Resistência à Insulina: O perigo silencioso
A Resistência à Insulina (RI)
acontece quando as nossas células começam a deixar de reagir ao sinal da
insulina. Para compensar, o corpo produz ainda mais insulina (um estado chamado
de hiperinsulinémia).
O problema produção
persistente de níveis elevados de insulina pode contribuir para a manutenção e
agravamento da resistência à insulina, perpetuando um ciclo difícil de
interromper, logo o açúcar no sangue mantem-se normal, mas a insulina fica cada
vez mais alta. Este mecanismo pode-se arrastar durante anos, até décadas, até
falhar e os sintomas de diabetes começarem a aparecer e ser diagnosticada pré-diabetes/diabetes.
4. O peso e a gordura abdominal
A obesidade é um dos maiores
gatilhos para a RI. O excesso de gordura interfere com a função da leptina (uma
hormona produzida pelas células de gordura que regula o apetite), fazendo com
que o cérebro não reaja ao sinal para parar de comer.
No entanto, a obesidade não é igual em todas as pessoas, algumas têm a tendência para ter células de gordura que crescem muito (hipertrofia) estas pessoas tendem a desenvolver diabetes mais cedo; outras criam novas células de gordura, mas pequenas (hiperplasia), o que é mais saudável, mesmo que tenham mais gordura total e existem pessoas que são magras por fora, mas apresentam muita gordura visceral (à volta dos órgãos) que é perigosa porque causa uma inflamação constante e contribui por esse mecanismo para a RI.
5. Stress e Estilo de Vida
O stress crónico mantém
níveis elevados de cortisol, que obriga o fígado a produzir mais açúcar e como
consequência estimular o pâncreas de forma constante a manter a produção de insulina
e favorecer o desenvolvimento de resistência. Juntando isto ao sedentarismo e
ao consumo excessivo de calorias, temos o cenário perfeito para a doença
avançar.
6. Como prevenir e tratar?
A base de tudo é a mudança
de hábitos:
- Alimentação: evitar alimentos processados e hidratos
de carbono de absorção rápida, pobres em fibra (como pão branco, doces e
bebidas açucaradas), apostando em alimentos completos, assegurando um
aporte adequado de proteínas e privilegiar alimentos ricos em fibra,
vegetais, leguminosas, frutos secos e gorduras saudáveis.
- Exercício: o ideal é praticar atividade
física cerca de 5 vezes por semana, misturando caminhada/corrida com
exercícios de força (musculação), para estimular os músculos a usar o
açúcar novamente;
- Gestão de stress e sono de qualidade: é importante aprender técnicas de relaxamento que ajudem na gestão da ansiedade e stress crónico assim como e de modo a ter 7 a 8 horas de sono de qualidade;
Além destas mudanças, em muitos casos, os medicamentos são necessários para ajudar o corpo a responder melhor à insulina e evitar danos causados pelo aumento de açúcar até à pessoa conseguir mudar de hábitos de vida.
A resistência à insulina é
uma das alterações metabólicas mais frequentes da atualidade e pode permanecer
silenciosa durante muitos anos antes do aparecimento da pré-diabetes ou da
diabetes tipo 2. Para além do impacto nos níveis de açúcar no sangue, está
associada ao aumento do risco cardiovascular, à doença hepática gordurosa, à síndrome
metabólica e possivelmente a algumas doenças neurodegenerativas.
A boa notícia é que grande
parte deste processo é modificável. A adoção de uma alimentação equilibrada, a
prática regular de exercício físico, a gestão do stress e um sono de qualidade
podem melhorar significativamente a sensibilidade à insulina. Em muitos casos,
estas medidas permitem atrasar ou reduzir a necessidade de medicação,
contribuindo para uma melhor qualidade de vida e para a prevenção de
complicações futuras.
Artigo baseado na apresentação “Resistência à Insulina” do Enf. Edgar Rosário e da AE Bianca Valente
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